dezembro 18, 2023

1º dia de Movimento Novas Economias: economia Donut e liderança inspirada na natureza

O Movimento Novas Economias foi um evento realizado pelo Impact Hub Brasília e o NOUS Ecossistema. Teve apoio institucional da Cotidiano Aceleradora, ABDI e patrocínio da Coalizão pelo Impacto e Instituto Sabin. Nos dias 23 e 24/11, promoveu o diálogo entre os setores público, privado, academia e sociedade civil para impulsionar o empreendedorismo sustentável e regenerativo.

O primeiro dia iniciou com as falas de apresentação da Deise Nicoletto (Fundadora do Impact Hub Brasília), Daniel Mira (CEO do NOUS Ecossistema), Cristiano Prado (Líder de projetos econômicos e sociais do PNUD), Bruno Jorge (Head de Indústria 4.0 e Difusão Tecnológica da ABDI) e Isabela Almeida (sócia da Cotidiano Aceleradora).

Abertura

O evento teve início com a fala da Deise Nicoletto (CEO e Fundadora do Impact Hub Brasília) e do Daniel Mira (Fundador do NOUS Ecossistema). “A gente gosta de ressaltar essa ideia da economia como “oikonomias”, ou seja, esse significado de origem da nossa casa, de como a gente pode organizá-la e ter um olhar muito apontado para um pensamento de abundância que a natureza traz e uma simplicidade dessas comunidades ancestrais que estão, de alguma forma, apontando caminhos para nós há muito tempo”, destacou Mira.

Cristiano Prado (Líder de projetos econômicos e sociais do PNUD) também participou desse momento. Ele falou sobre a Agenda 2030 e a importância dos negócios de impacto para a transformação. “O governo não vai ser capaz de implementar a Agenda sozinho. Ele precisa do setor privado e do poder dos negócios apoiando. Esse poder precisa estar alinhado com o impacto, com o propósito, para a gente poder buscar essa aceleração que tanto precisamos”, pontuou Prado.

Bruno Jorge (Head de Indústria 4.0 da ABDI) marcou presença na abertura para representar a empresa apoiadora. “A gente enxerga, dentro da ABDI, que esse processo da transformação da sociedade, essa transição digital e da sustentabilidade é, além de irreversível, necessário. Então, um dos pontos que  a gente entende é como a ABDI pode construir projetos e parcerias que alavanquem e acelerem esse processo”, relatou Bruno.

Para finalizar o início do evento, Isabela Almeida (sócia da Cotidiano Aceleradora), falou sobre a empresa e sua atuação no Distrito Federal. “A gente acredita que o verdadeiro progresso vai muito além do sucesso financeiro. Então, queremos buscar e ajudar a criar essas mudanças positivas na nossa sociedade e no meio ambiente”, contou Almeida.

Palestra Magna | Economia Donut

A primeira palestra abordou o tema Novas Economias, em especial a Economia Donut. A convidada para falar sobre esse assunto foi Ana Lavaquial (Cofounder da Donut Brasil).

Ana iniciou a palestra falando que as Novas Economias propõem uma mudança do modelo mental. “A mudança não depende só das empresas ou de quem fala sobre novas economias. Precisamos das comunidades, da academia, do governo”.

De acordo com Ana, “precisamos de um novo glossário, sobretudo dentro das empresas. Temos que entender a subjetividade por trás de palavras como, “regeneração”, “impacto”, “resiliência “, “bem-estar” e “suficiência”.

Nesse cenário de mudança, surgem os novos modelos de economias, como:

Biomimética: observar intencionalmente a natureza e como as inovações podem surgir dela.

Economia Circular: pensar nos processos e produtos minimizando os impactos.

Economia Donut: atender as necessidades de todos respeitando os limites do planeta. 

Sobre a Economia Donut, Ana disse que “o princípio desse modelo não quer deixar ninguém dentro da rosquinha, pois isso significa que essas pessoas não têm acesso ao básico para a vida. E isso tem muito a ver com os ODS’s; acesso à água, saúde, educação, voz política”.

A palestrante também falou que, as fronteiras planetárias como mudanças climáticas, poluição mediterrânea, perda de biodiversidade e outras, estão no limite do donut e são as dimensões básicas para manter os sistema vivos.

De acordo com Ana, a Economia Donut tem 7 princípios fundamentais, que são:

  1. Mudar o objetivo. Ela deu como exemplo o PIB. “O aumento do PIB é o que há como objetivo. Onde está a vida e a sociedade aí?”, perguntou a convidada. “Será que não faz muito mais sentido a gente querer um modelo como o donut centrado na vida dos seres vivos de um modo geral?”, completou.
  2. Mudança do mercado autônomo para a economia integrada. “Não existe externalidade, está tudo integrado”, falou Ana.
  3. Estimular a natureza humana.
  4. Compreender o funcionamento em sistemas. “Os problemas complexos não são resolvíveis, são gerenciáveis”.
  5. Projetar para distribuir. “Precisamos de estruturas diferentes para dar acessos e oportunidade de forma mais igualitária e inclusiva para a sociedade”.
  6. Pensar regenerativo.
  7. Abrir mão do crescimento exponencial. 

Para Ana, “é necessário olhar para o local e adaptar a ideia da Economia Donut”, já que cada lugar possui as suas particularidades e necessidades próprias.

A convidada encerrou sua palestra com uma frase da Kate Raworth, idealizadora da Economia Donut. “A ferramenta mais poderosa na economia não é dinheiro. É um lápis. Pois com um lápis, você pode redesenhar o mundo”.

Painel 1 | Transição para novas economias

O painel debateu a atuação conjunta do estado e da sociedade civil para viabilizar novos modelos econômicos. Contou com a participação de Gabriel Cardoso (Presidente do Instituto Sabin), Guilherme Suertegaray (Gerente de Projetos da Fundação Ellen MacArthur), Natacha Britschka (FIESP), Lucas Maciel (Diretor de Novas Economias do MDIC) e Tadzo Queiroz (Analista da Financiadora de Estudos e Projetos da Finep), com mediação de Rosana Rezende (NOUS Instituto).

Ciência, tecnologia, inovação, políticas públicas e iniciativas de circularidade: múltiplos olhares sobre as novas economias. O primeiro painel do evento trouxe à tona as inúmeras possibilidades de transformar a economia brasileira.

O destaque do painel “Transição para Novas Economias” veio com o debate sobre a atuação da União e seu papel em fomentar iniciativas que envolvam estados e municípios na agenda de transformação. Em sua fala, Lucas Maciel trouxe a importância de estabelecer parcerias com a sociedade civil e seus diversos atores.

“Acreditamos que o estado tem um papel importante nessa mobilização, mas contar com a iniciativa privada e com a sociedade como um todo é fundamental para gerar mais soluções para a iminência climática”, destacou Ramalho.

O Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação também marcou presença no debate. O MCTI se concentrou na forma como a inovação pode apoiar essa transição econômica por meio de projetos e chamadas públicas. “Entendemos que precisamos incentivar a comunidade inovadora brasileira a produzir ainda mais projetos que possam nos auxiliar dentro do contexto de emergência climática. Por isso, reformulamos a estrutura da Finep para abraçar esse olhar de transformação econômica”, relatou Tadzo Queiroz.

Empresas privadas também estão desenvolvendo iniciativas para impulsionar modelos econômicos emergentes e disruptivos que cuidem dos aspectos sociais e ambientais do país. Gabriel Cardoso enfatizou os esforços empreendidos neste sentido.

“Uma empresa privada em suas ações escolhe como fazer seu negócio pensando em novas possibilidades, novos futuros e criando um horizonte temporal diferente”, pontuou Cardoso.

Ao longo do evento, tornou-se evidente em todas as falas que iniciativas sistêmicas são essenciais para garantir a longevidade das ações. Guilherme Suertegaray reforçou que a cooperação entre organizações do terceiro setor e grandes players garante mudanças escaláveis e é capaz de transformar todo um setor. “Concordo com o Lucas, as empresas vão até um certo ponto. Depois, entra o setor público, e essa parceria garante que alguns consensos e soluções encontrem eco no setor público para alcançar toda a economia”, ponderou Suertegaray.

Abertura | Tarde

Para abrir as conversas da parte da tarde, Diogo Quitério (Vice-diretor do Instituto de Cidadania Empresarial – ICE e Membro da Diretoria Executiva da Coalizão Pelo Impacto) e Caio Zucchinali (Gestor de Projetos no Impact Hub Floripa) falaram sobre o mapeamento do ecossistema de impacto nos contextos que eles atuam.

“Não adianta a gente ficar de braços cruzados esperando chegar esses grandes negócios que vão resolver os problemas sociais e ambientais e serem altamente rentáveis. A gente precisa criar esses novos mercados, para que essas temáticas possam ser fomentadas”, apontou Diogo.

Caio deu seguimento à conversa contando um pouco sobre a história do Impact Hub e empreendimentos de impacto. “ O potencial de impacto ao investir em negócios e soluções inovadores para a resolução de desafios públicos é super exponencial”, destacou Zucchinali.

Sobre a Coalizão pelo Impacto e a sua atuação nas 5 regiões do Brasil, Diogo disse que, “é justamente nessa reflexão da importância de existir um ecossistema local, disponível e conectado para apoiar negócios de impacto que surge esse projeto chamado Coalizão Pelo Impacto. É uma união de 11 organizações financiadoras.”

Sobre o grau de maturidade das iniciativas de impacto analisadas pela Coalizão, Caio pontuou os 3 estágios que foram criados: nível 1 – semente; nível 2 – florescimento e nível 3 – fortificação.

Ele fez uma comparação do ecossistema de negócios de impacto no Distrito Federal e nas outras cidades que a Coalizão está presente. “As iniciativas de negócios de impacto de Brasília já vem colhendo alguns frutos e trazendo resultados de coisas que foram feitas nos últimos anos”, provocou Zucchinali.

Palestra Magna | Como a natureza pode mudar líderes que trabalham com um impacto positivo

Na segunda palestra magna, o convidado Andres Roberts (sócio fundador da The Bio-Leadership Project) compartilhou as perspectivas que ele têm visto dentro do seu trabalho com a natureza.

Andres inicia a conversa falando que, “estamos em um ponto que não podemos continuar da mesma maneira e não temos uma resposta ainda, mas precisamos de novas formas de progresso regenerativo”.

Falando sobre a natureza e o ato de observá-la, Andres disse que os sistemas humanos, nossos negócios, comunidades, sistemas governamentais, trabalham de uma forma muito diferente de como funciona um sistema natural saudável.

Andres citou tendências de crescimento socioeconômico que estão em crescimento desde 1950. Relacionado a isso, os níveis dos sistemas terrestres também começaram a aumentar em um padrão similar, como por exemplo a acidificação dos oceanos e a perda de florestas tropicais.

Sobre essa análise, Andres disse que “se qualquer parte de um sistema na natureza maximizar, isso fará com que o sistema seja destruído”.

De acordo com o palestrante, outro aspecto da maneira dominante de como vemos o mundo é que, mentalmente, nós enxergamos ele, a natureza e os seres humanos nas organizações como recursos. “Essa ideia de que temos controle de uma forma mecânica não funciona mais quando o mundo é complexo”.

Ainda falando sobre o mesmo assunto, Andres disse, “a natureza não funciona através da maximização, mas através da otimização”.

Após a palestra, foi aberto um espaço para perguntas dos espectadores. Na resposta de uma delas, Andres apresentou um slide sobre “como desenvolvemos uma organização centrada na natureza e centrada na vida?” e disse que existem 5 tipos de história. São elas:

  • Novas formas de propósito e progresso conectados à natureza;
  • Novas formas organizacionais que funcionam como a natureza;
  • Novas maneiras de trabalhar como ecossistemas, inspirados pela natureza;
  • Novos modelos regenerativos de organização e sociedade;
  • Novas culturas que se reconectam com a natureza e a teia da vida. 

Para finalizar a palestra, Andres fez uma meditação com os espectadores, prática recorrente em seu projeto The Bio-Leadership.

Painel 2 | Negócios de Impacto

O painel “Negócios de Impacto” contou com a participação de Bárbara Pacheco (VerdeNovo), Carol Freitas (NOUS Ecossistema), Marcos Iorio (CCD Circula), Melissa Bivar (REconomy) e Rachel Karam (Sistema B). A mediação foi de Daniel Mira (NOUS Instituto).

O movimento coletivo foi aclamado como uma forma eficiente de fazer a mudança tão necessária quanto urgente. 

Necessidade de remover obstáculos jurídicos, educação ambiental, nova formação para lideranças, conselhos com participação da natureza, seja como acionista, como já ocorre com a marca de roupas Patagônia, ou até como CEO, como é o caso da inglesa Mother Nature. Os desafios de empreender na era da transição econômica foi o centro das conversas do segundo painel do “Movimento Novas Economias” que se debruçou sobre os negócios de impacto. O assunto esteve no primeiro dia do evento realizado pelo NOUS Ecossistema e pelo Impact Hub Brasília.

Rachel Karam (Advogada e integrante do grupo jurídico do Sistema B Brasil) trouxe uma potente reflexão sobre a necessidade de se construir um novo arcabouço jurídico para o país para dar respaldo à natureza, à biodiversidade e à economia socialmente responsável, pensando no bem estar coletivo. 

“Centrados na estratégia nacional de economia de impacto precisamos reescrever a legislação, criar jurisprudência. Precisamos mudar as forças de poder dentro das empresas, gerando melhores tomadas de decisão para que o objetivo não seja exclusivamente o lucro no bolso do acionista, mas a geração de impacto social e ambiental”, provocou.

Para encorajar as corporações a fazer uma transição para um modelo de negócio mais justo social e ambientalmente é fundamental que as lideranças dentro das corporações sejam tocadas pela relevância desta narrativa. Em sua fala, Carol Freitas (CEO do NOUS Ecossistema) trouxe a importância de despertar protagonistas para arregimentar as mudanças.

Carol Freitas Movimento Novas Economias
Foto: NOUS Ecossistema

“Sabemos o quanto é difícil ser regenerativo como pessoa, imagina as organizações. Mas está acontecendo num tempo muito próprio e nem por isso deixa de ser essencial. Me chama atenção que as camadas poderosas se questionem como fazer isso”, destacou.

Neste sentido, o movimento coletivo tem sido aclamado como uma forma eficiente de fazer a mudança tão necessária quanto urgente. Marcos Iorio (Vice-Diretor da CCD Circula), trouxe como exemplo de atuação coletiva as cooperativas de catadores pelo Brasil. “As políticas públicas são o elo que impulsiona movimentos coletivos a escalar e aqui trago o exemplo que me transformou que é a gestão de resíduos em modelo de cooperativas, porque neles encontramos uma lógica de valorização do empenho de muitas mãos”, afirmou Iorio.

Empreendedora de impacto socioambiental, Bárbara Pacheco (CEO da VerdeNovo Sementes) puxou uma reflexão sobre como a cultura tradicional de empreendimento colabora para a negação dos conhecimentos ancestrais e a valorização de modelos pouco coletivos e inclusivos de empreendedorismo. 

“Como empreendedores, fomos acostumados a ser o centro, pensar na gente, olhar para o gerenciamento financeiro da nossa empresa. Mas quem vai nos ajudar a olhar para o gerenciamento de externalidades? Como alocar o dinheiro para mensurar impactos negativos da cadeia de valor? E, mais, como encaramos de frente essa questão sem estar na postura de colonizadores?”, provocou Pacheco.

Reveja as lives do evento:

World Cafe Movimento Novas Economias
Foto: NOUS Ecossistema
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